Nossa História

Breve história do Departamento de Informática da PUC-Rio, por Arndt von Staa (2003)

1. Introdução

Difícil é narrar a história de uma instituição. Mais difícil ainda é fazê-lo quando se tem tanto a contar. O que contar? Como estruturar a narrativa? Os períodos em que a dividimos foram identificados de forma um tanto arbitrária, mas, mesmo assim, correspondem a épocas com características próprias que as caracterizam bem. Acreditamos que o conjunto dê uma boa perspectiva da história do Departamento de Informática (DI) da PUC-Rio e do papel desempenhado por seus integrantes — professores, funcionários e alunos – para torná-lo o que é hoje.

2. Gênese

Tudo começou quando a PUC, por sua excelente reputação, foi escolhida para sediar o primeiro computador instalado no Brasil. Segundo o que registrou o saudoso prof. Cardoso do DCMM, que na época era o presidente do CNPq, foi constituído um consórcio formado pelo CNPq, IPqM (Marinha) e Itamaraty, que uniram esforços para trazer para a PUC um computador Burroughs Datatron B-205, o primeiro computador a operar produtivamente no Brasil.

Era uma respeitável máquina, pesando um pouco mais de uma tonelada e contendo cerca de 1.600 válvulas duplos triodos e um enorme conjunto de diodos estado sólido, além de resistências e capacitores. Isto tudo consumia perto de 30 kVA de energia. Para que pudesse manter a cabeça fria e calcular corretamente, o CPD dispunha do único sistema de ar condicionado da PUC. Aparentemente este sistema continuou operando bem, pelo que indicava a temperatura agradável da capela, que mais tarde, e por muitos anos, ocupou o local onde estava instalado o monstro.

A quantidade de memória desse computador era – para os padrões da época! – fantástica, 4000 palavras de 10 dígitos decimais, cerca de 16K. As operações eram rapidérrimas, uma adição consumia 0,1 milissegundos, isto quando conseguíamos produzir código capaz de operar na banda rápida da máquina, caso contrário era 1ms mesmo. Como saída impressa podia-se escolher entre uma máquina de escrever de martelinhos ou uma impressora tabuladora IBM ultra–eficiente capaz de imprimir 60 linhas de 80 caracteres numéricos por minuto. Esta tabuladora era, na realidade, um computador eletromecânico – controlado por relés – e programado por painel. Um painel é uma espécie de tábua feita de material isolante e cheio de furos. Através de fios colocados nestes furos estabeleciam-se contatos entre relés e, desta forma, estabelecia-se o comportamento da máquina.

O conjunto de equipamentos  custava cerca de um milhão de dólares da época, hoje provavelmente algo perto de US$ 10 milhões. Para usá-la precisava-se marcar hora, algumas vezes com vários dias de antecedência. Para depurar programas, andava-se na máquina sobre as instruções do programa, uma a uma, e enquanto isso ninguém mais podia utilizá-la. Os resultados da execução de cada instrução eram conferidos nas inúmeras lampadinhas que tinha o painel de controle. Pois é, qualquer palmheld moderno dá de 1.000 a zero naquela máquina.

O corpo técnico do CPD era formado por alunos da PUC, exceto o diretor, na época o prof. Hélio Drago Romano, e do técnico de manutenção, Manoel Martins. Durante algum tempo trabalhou no CPD o Dr. Jacques Cohen, um dos raros pós-graduados existentes no Brasil naquela época. Graças a ele e ao Pe. Amaral, muitos de nós fizemos o primeiro curso de programação no CPD da PUC-Rio. Aprendemos o bê-á-bá da computação de uma forma muito mais frustrante do que hoje, apesar dos atuais alunos não acreditarem nisso. Havia um professor, Theodoro Oniga, que dava aulas de pesquisa operacional, nas quais incluía a discussão de charadas matemáticas. Alguns poucos sobreviviam ao curso. Dentre estes, pouquíssimos se aventuraram a continuar no metier da computação, na época coisa para pessoas um tanto ruins da cabeça. Mais adiante o prof. Sérgio Machado Rezende, na época estudante do curso de engenharia eletrônica da EPUC, passou a cuidar dos cursos de programação do B-205.

Vários programas foram desenvolvidos no CPD. Alguns dos mais significativos tiveram a liderança do prof. Jacques Cohen. Por exemplo, desenvolvemos para a empresa Furnas, entre outros sistemas, a Simulação da Operação de Reservatórios Hidroelétricos e a Simulação do Fluxo de Carga. Os programas rodavam horas seguidas. Trabalhávamos em turnos. Os que passavam a noite podiam dormir numa espécie de maca armada atrás do computador. Se acontecesse algum problema, por exemplo a queima de uma válvula ou de uma resistência, um alarme com um barulho infernal soaria, despertando qualquer pessoa do seu merecido sono. Às 22 h passava um (o único) segurança da PUC e avisava que iria soltar os cachorros. Tínhamos então que decidir quem iria dormir atrás da máquina, sendo que os outros iam jantar em algum lugar.

Lá conheci o Carlos José Lucena, em 1963. Ele e mais o Carlos Valdesuso, o Raphael Chrisóstomo Barbosa da Silva e outros compunham o DPO – Departamento de Pesquisa Operacional, que era uma parte do CPD. Entre as novidades inventadas pelo grupo, destaca-se um protótipo de compilador Algol. Como a leitora de cartões não sabia ler cartões alfanuméricos, eles inventaram um jeito de ler duas vezes a massa de cartões, uma vez a partir do topo e a outra a partir da base. Depois era só processar o que fora lido para recompor os caracteres alfabéticos… Acredito que daria um bom artigo descrever este programa.

Por volta de 1965 diversas universidades brasileiras, entre elas a PUC-Rio, receberam computadores IBM 1130. Esses computadores, já com circuitos de baixa integração, tinham 8K de memória real e disco com 5Mbytes, e vinham com duas coisas extremamente interessantes: um simplérrimo sistema operacional e um compilador Fortran. Isto tornava possível ensinar programação de uma forma mais ampla e indolor. Tal oportunidade de negócio – sim, éramos empreendedores! – foi observada pelo prof. Lucena, pelo Luiz Carlos Siqueira e pelo José Roberto Ribeiro dos Santos, que resolveram oferecer um curso de cálculo numérico através do recém criado Departamento de Matemática, então dirigido pelo prof. Antonio Cesar Olinto. Quando voltei de um período de ano e meio passado em curso de extensão na Alemanha, encontrei, no final de 1967, este curso em andamento e bastante bem sucedido.

No período de minha ausência, o Antônio Carlos do Rego Gil e outros da IBM negociaram com a PUC a instalação de um computador IBM 7044 em regime de comodato. Para isto foi criado o RDC – Rio DataCentro. O 7044 tinha 32 K palavras de 36 bits (cerca de 180K bytes) e operava com um ciclo de memória de cerca de 6 microsegundos. Era da mesma família que os computadores 7094 ainda intensivamente utilizados em universidades americanas, embora já existissem máquinas mais modernas, tais como o 1130 (muito pequeno) e os primeiros modelos do IBM 360, entre outros. Tinha a PUC o maior centro de computação científica do Brasil.

Para aprenderem a operar esse computador, no inverno de 1967 (janeiro a março) foram para Waterloo, Canadá, o prof. Lucena, o Wilfried Probst e o Luiz de Castro Martins, na época analista da IBM. Lá conheceram o prof. Donald Cowan com quem o prof. Lucena estabeleceu uma estreita e fecunda amizade, da qual resultaram inúmeros artigos publicados e uma intensa colaboração com o CSG – Computer Systems Group, que passou a ser conhecido na Universidade de Waterloo como “The Brazilian Connection”, por serem tantos os brasileiros que lá estudaram ou trabalharam.

Através do relacionamento com o prof. Cowan estabeleceu-se uma conexão com o prof. Calvin Gotlieb da Universidade de Toronto. Esta também recebeu um número significativo de pós-graduandos brasileiros.

Com a chegada do computador IBM 7044 iniciou-se uma nova fase. Passou a ser possível ensinar programação para todos os alunos do CTC, introduzindo a linguagem Fortran IV, já no primeiro período de créditos do Ciclo Básico. Como nos sentíamos pequenos ao entrarmos num auditório com cerca de 200 alunos! Sim, em 1968 aulas do Ciclo Básico eram dadas em auditórios. Cada turma tinha cerca de 200 alunos e, de maneira geral, existiam duas turmas paralelas. Apesar das massas de alunos em sala de aula, a impressão que se tem é que aprendiam tanto quanto os alunos de agora. Tínhamos então a difícil tarefa de convencer os alunos daquela época de que programação era coisa importante para qualquer engenheiro e que um engenheiro que não soubesse programar eventualmente teria dificuldade em encontrar trabalho interessante. E eles enfrentavam corajosamente nossos cursos de ICC e Cálculo Numérico. Findo o que resolviam felizes os seus problemas de cálculo usando réguas de cálculo, ignorando por muitos anos a existência de computadores.

Para transmitir aos alunos uma idéia do que se passava em detalhe dentro da máquina, desenvolvemos um simulador do velho B-205, dando-lhes assim a chance de produzir programas em linguagem absoluta. Rapidamente nasceu o PUC-007, ensinado por alguns anos em ICC. Como era divertido mandar os alunos escreverem nesse simulador rotinas de conversão de inteiro fracionário (dois números) para vírgula flutuante! Mesmo assim, muitos alunos passaram a gostar de Informática — pelo menos é o que me dizem quando me vêem.

3. Fase Heróica (67 a 70)

Diz uma das estórias do Barão de Münchhausen (um dos melhores contadores de mentiras) que ele estava cavalgando num descampado quando caiu num brejo. Como não havia ninguém para socorrê-lo e o brejo já estava tragando o cavalo, Münchhausen resolveu socorrer a si e ao cavalo. Apertou com todas as forças que tinha as pernas em torno do cavalo e começou a puxar os cadarços da botas com mais força ainda, até conseguir retirar os dois do brejo. Desta estória vem a expressão “bootstrap”, muito usada em computação e que, em linhas gerais, significa desenvolver uma coisa usando esta mesma coisa como instrumento. Maluquice? Qual nada – totalmente óbvio. A criação do programa de mestrado do DI foi essencialmente um processo de bootstrap. Em virtude das circunstâncias – dificuldade de conseguir trazer professores visitantes – o programa foi criado com ele mesmo.

Já em 1967, ainda no Departamento de Matemática, alguns de nós, incluindo o prof. Lucena, Furtado, Lins, Sérgio Carvalho, Luiz Martins, eu e mais alguns outros estávamos ao mesmo tempo cursando e começando a lecionar um novo mestrado na PUC-Rio. O nome do programa surgiu após uma longa discussão, para decidir se deveríamos abrasileirar o título Computer Science dos americanos ou a palavra Informatique dos franceses. Ganhou Informatique, por considerarmos o termo mais abrangente. Nasceu assim o primeiro neologismo da área. Era um programa de mestrado em que um dava aula para os outros, e todos tentavam aprender juntos tudo que havia de novo.

Ocorreram eventos curiosíssimos, como por exemplo, um aluno defender a sua dissertação de mestrado tendo como orientador um “professor orientador” que ainda não havia defendido a sua. Fenômenos de “bootstrap”. Sem estes fenômenos nada teria sido conseguido. Coragem era tocar um projeto desses e fibra era assegurar que ele não desandasse para a mediocridade, mas, sim, se tornasse forte e respeitável. O Departamento de Informática foi criado no final de 1967 e começou a operar formalmente em março de 1968, tendo como primeiro coordenador de Pós-Graduação o prof. Lucena, e o prof. Olinto como seu primeiro diretor. Em março de 1968 começaram a primeira turma regular de mestrado e também as primeiras turmas de ICC – Introdução à Ciência da Computação e Cálculo Numérico, agora obrigatórias para todos os alunos do Ciclo Básico do CTC.

Em 1969, finalmente, todos os que formavam o corpo docente do DI tinham concluído o mestrado, alguns de nós com créditos obtidos em cursos na Universidade de Waterloo. Podíamos passar para a segunda etapa, a de obtermos o doutorado. Na época ainda não havia a exigência de o corpo docente de pós-graduação ser formado por doutores. Mas, na visão do prof. Olinto e do prof. Lucena, esta deveria ser a meta a ser alcançada pelo DI no menor prazo possível. O primeiro a ir cursar o doutorado no exterior foi o Sérgio Carvalho em 1969. Em 1970 foi a segunda leva e assim por diante. As forças de reposição nós recrutávamos entre os nossos mestres recém-formados, pois o mestrado já estava operando com regularidade satisfatória e já estava produzindo pessoas com bom nível de formação.

4. Fase de Consolidação do Mestrado (70 a 75)

Durante boa parte do período de 1970 a 1975 muitos dos professores do DI estavam no exterior cursando o doutorado. No final, quase todo o corpo docente do DI passou a ser formado por doutores. Esse período foi também marcado por grandes transformações na área de Informática. Iniciou-se no Brasil a era da “Política Nacional de Informática”. A comunidade acadêmica já se sentia suficientemente forte para constituir uma sociedade científica, a SBC – Sociedade Brasileira de Computação. O Departamento de Informática cresceu e se consolidou.

Por volta de 1970 o DI e o RDC conseguiram um financiamento que possibilitou a construção do prédio RDC, o qual passou a ser usado por ambos em 1972. Também foi negociada com a IBM a instalação de um computador IBM 370/165, um dos maiores computadores disponíveis na época. Mais uma vez estávamos na liderança no país, quiçá na América Latina, em capacidade computacional instalada. Certamente contribuíram para o desfecho positivo a credibilidade e a reputação adquiridas tanto pelo curso de mestrado como pelo RDC. Recebíamos alunos de todos os cantos do Brasil e também do Chile. Uma boa parte dos corpos docentes iniciais das principais universidades brasileiras obteve o mestrado no Departamento de Informática da PUC-Rio.

Os programas de pós-graduação em Ciência e Tecnologia no Brasil foram viabilizados por José Pelúcio Ferreira, então no BNDE (hoje BNDES), através do FUNTEC que ele criou e gerenciou. A PUC-Rio iniciou por volta de 1964 o primeiro programa de mestrado em Engenharia Mecânica, entre outros, sob os auspícios do FUNTEC. Pelo que me foi dito em várias ocasiões, é desse programa o primeiro mestre formado no Brasil.

Algum motivo insondável para mim levou ao fechamento do FUNTEC. Quanto aos recursos financeiros, o fechamento do FUNTEC, antes de ter sido criada uma alternativa, provocou uma situação crítica, fazendo com que em 1973 os professores de pós-graduação da PUC-Rio passassem sem receber salários por mais de meio ano. O problema foi resolvido com a criação da FINEP (FNDCT) e a aprovação do “Projeto FINEP”, que veio apoiar todo o CTC da PUC-Rio por mais de uma década.

Também neste período o governo resolveu racionalizar o uso de computadores na administração governamental e nas estatais. Para isto foi criada a CAPRE. Nesta mesma época professores do departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio desenvolveram um concentrador de dados para o SERPRO. Com esse equipamento, ao invés de perfurar cartões, os documentos fiscais podiam ser transcritos diretamente para uma fita magnética. Este concentrador e mais o computador Patinho Feio desenvolvido na EPUSP motivaram a proposta de se desenvolver um minicomputador nacional. Foi então iniciado o projeto G10, que tinha por meta criar o hardware (FDTE/EPUSP) e o software (Informática/PUC-Rio) desse computador. Foi um dos primeiros projetos “industriais” em que o Departamento de Informática participou. O projeto mostrou que era possível e interessante conjugar-se ensino, pesquisa e desenvolvimento. Infelizmente, por falta de visão de longo prazo e por interesses imediatos (dispor de uma fonte de recursos para fazer frente à falta de pagamento dos salários), a condução do projeto foi enfatizando cada vez mais o desenvolvimento, em detrimento do ensino e, certamente, da pesquisa. Um clichê criado naquele tempo foi o de que “é pesquisa tudo o que a indústria não faz”. Os detratores logo comentavam: “plantar batatas é pesquisa uma vez que não existe indústria que o faça”.

Em 1975, após o retorno dos professores que haviam saído para obter o doutorado, o Departamento de Informática optou firmemente pelo lado acadêmico de ensino e pesquisa. Em conseqüência, o projeto G10 junto com uma significativa parte do corpo docente foi transferido para a recém-criada COBRA, empresa estatal que tinha por missão desenvolver e comercializar computadores e o respectivo software básico. Eventualmente o projeto G10 evoluiu, transformando-se no COBRA-500, que teve diversas unidades comercializadas no país. Esse, sem dúvida, foi um dos primeiros exemplos de sucesso de criação de spin-off, mesmo que involuntário e um tanto traumático.

No início da “era informática” no Brasil o treinamento no uso das máquinas, com raras exceções, era feito pelos próprios fabricantes. Os cursos de maneira geral eram fracos e não tratavam de conceitos. Tinham a pecha de serem cursos de “lavagem cerebral”. Ou seja, ensinava-se o estritamente necessário para poder-se utilizar a contento o hardware e o software vendido pelos fornecedores.  Isto levou o prof. Luiz Martins, então diretor do RDC, a criar no RDC o curso de extensão em Análise de Sistemas. Mais tarde, quando o prof. Luiz Martins se transferiu para a CAPRE, ele criou o  P15 (projeto 15) o curso de Tecnologia em Processamento de Dados. Ambos os cursos eram independentes de equipamento específico e focalizavam conceitos e formação, ao invés de mero treinamento. Mais tarde o curso de extensão em Análise de Sistemas foi transferido para a CCE – Coordenação Central de Extensão, e se tornou o carro chefe daquele órgão. Pode-se até dizer que foi esse curso que viabilizou a CCE. Para alcançar maior abrangência, esse curso foi transformado bem mais tarde em um curso de especialização em Análise, Projeto e Gerência de Sistemas e, recentemente, foi desmembrado em dois cursos de especialização, um de análise e projeto e outro de gerência de projetos.

Neste período foi estabelecida a “Política Nacional de Informática”, que tinha por objetivo tornar o Brasil independente e auto-suficiente no fabrico de computadores de pequeno porte. Cabe lembrar que os microcomputadores ainda não satisfaziam as necessidades de usuários empresariais. Infelizmente a política teve alguns efeitos prejudiciais. A proibição de se importar equipamento de pequeno porte e baixo custo dificultou enormemente a pesquisa aplicada e o desenvolvimento em engenharia de software.

Finalmente, a comunidade acadêmica considerou-se suficientemente forte para criar a SBC – Sociedade Brasileira de Computação – com a missão de agregar e defender os interesses da pesquisa em Informática.

5. Fase de Consolidação do Doutorado (75 a 82)

O programa de mestrado já estava maduro e operando bem, tinha uma procura expressiva tanto de futuros pesquisadores como de profissionais que desejavam reciclar-se. Graças ao projeto FINEP os problemas financeiros do CTC estavam equacionados. Assim, uma vez que o corpo docente agora estava devidamente qualificado, o DI pôde dar início ao programa de doutorado.

Estimulados pela experiência obtida no exterior com pesquisa e elaboração de tese, todos nós nos dedicávamos a produzir artigos técnicos e a estabelecer laços com outras instituições nacionais ou estrangeiras. Através desses relacionamentos foram consolidadas, entre outras, diversas colaborações principalmente com a Alemanha, por um convênio com o GMD, e ainda com o Canadá, através de um convênio com o CIDA que também envolvia universidades do Nordeste. Na vigência desses convênios tivemos o prazer de hospedar muitos professores visitantes que aqui permaneceram por vários meses, algumas vezes anos. Certamente os convênios muito contribuíram para que o Departamento de Informática se tornasse maduro.

Gradualmente começamos a ter mais e mais trabalhos aceitos em conferências e periódicos internacionais. Muito contribuiu para consolidar a ênfase em publicações a criação da série de Monografias em Ciência da Computação do Departamento de Informática. As monografias eram distribuídas a várias universidades brasileiras e, as que estivessem redigidas em inglês, também para uma extensa lista de universidades estrangeiras.

Antes da generalização do uso de processadores de texto e das impressoras a laser, os artigos eram escritos utilizando máquina de escrever. Figuras eram desenhadas a nanquim em papel vegetal. Quem datilografava os artigos era uma datilógrafa com nenhum conhecimento de inglês, e precisava redatilografar várias vezes, a cada vez corrigindo alguns erros e introduzidos diversos outros. Conseguir chegar a um estêncil com um texto de boa qualidade era uma enorme batalha entre o autor e a datilógrafa, ao fim da qual autor e datilógrafa se odiavam mutuamente. Computador para ajudar? Nem pensar. Impressora a laser? Estava ainda para ser inventada. Máquinas XEROX existiam, mas eram poucas as que existiam no campus, todas de qualidade baixa e operação difícil. Em resumo, poder-se-ia dizer que chegar ao fim do processo de aprontar um artigo era um indicador de sua qualidade. Afinal ninguém iria investir tanto esforço e adrenalina para dar bom acabamento a um artigo contendo resultados fracos…

Com o projeto FINEP foi possível estabelecer-se uma boa biblioteca, possuindo um acervo significativo, um número de assinaturas expressivo, e apoiado por um programa de intercâmbio de relatórios técnicos com um grande número de boas universidades estrangeiras. Começamos convencendo o RDC a ceder sua coleção de manuais IBM para o Departamento de Informática. Nasceu daí, em escala modesta, aquela que logo se tornou uma das melhores bibliotecas de Informática do país. Com muito esforço e algumas quebras de continuidade, conseguimos mantê-la operando a contento até os dias de hoje.

E, quanto à compra de livros? Que livros eram publicados? Tínhamos catálogos, mas muito pouco informativos. Com que recursos? Tínhamos o projeto FINEP, mas esse era limitado. Existiam os auxílios individuais do CNPq, muito utilizados para a compra de livros. Mas não existia a Amazon e importar qualquer coisa que fosse era uma tremenda dificuldade. Tinha-se que recorrer a uma empresa que cobrava o “dólar livro”, cerca do dobro do dólar no câmbio paralelo. Foi então que surgiu um mascate de livros. Ele era pior do que vendedor de Enciclopédia Britânica, trazia diversos livros para serem examinados e não saia da sala da vítima até que conseguisse vender pelo menos um livro. O mais incrível era que ele sabia exatamente os assuntos de interesse de cada professor e quanto ele ainda tinha na conta de auxílio.

Participar de congressos internacionais também era difícil, quase impossível. Graças a alguns convênios, notadamente com a IBM, o Departamento de Informática dispunha de uns poucos recursos para que pudéssemos viajar para congressos. De maneira geral, entretanto, era uma tarefa muito espinhosa convencer algum mecenas (IBM, CNPq, CAPES ou mesmo a PUC) a apoiar a viagem de um pesquisador a algum congresso no qual tivesse um artigo aceito.

6. Fase inicial dos micros (82 a 95)

Por volta de 1980 o modelo projeto FINEP começou a dar sinais de esgotamento. Os pleitos do CTC, antes aceitos com facilidade pela FINEP, começaram a ficar mais difíceis de serem aprovados. A exigência de relatórios técnicos e financeiros tornara-se cada vez mais freqüente. Em determinado momento tentou-se particionar o projeto do CTC em uma série de projetos departamentais. Sair para apresentar um artigo em conferência internacional tornou-se um pesadelo.  Quem quisesse viajar tinha que ir ao Banco do Brasil a fim de fazer uma remessa para um banco próximo do seu destino, sendo que essa remessa era limitada a US$2000,00 por cabeça.

Foi necessário apelar para diferentes agências de fomento para garantir a sobrevivência do DI e a integridade do CTC. Na época existia uma empresa, ConsulPuc, estabelecida no 5o. andar do prédio RDC, que tinha por missão servir como pessoa jurídica responsável pelos projetos realizados por membros do corpo docente. A ConsulPuc era uma empresa privada convencional (Ltda), o que dificultava a celebração de convênios com empresas estatais. Para criar uma alternativa mais eficaz, o José Pelúcio Ferreira e o prof. Lucena criaram a Fundação Padre Leonel Franca (FPLF) no lugar da ConsulPuc. A missão da FPLF é a de intermediar projetos entre membros do corpo docente, a PUC-Rio e empresas. Mas, como é uma fundação, a FPLF é uma entidade sem fins lucrativos e está sujeita a uma legislação fiscal e operacional que assegura transparência em sua atuação e, além disso, facilita a celebração de convênios com empresas estatais. Um dos benefícios colaterais da FPLF é o de transferir recursos significativos para a PUC, além de viabilizar a criação, a atualização e a manutenção de laboratórios, bem como a contratação de pesquisadores.

Começaram a surgir os primeiros microcomputadores. Usualmente geringonças ainda grandes, sem disco rígido, com pouca memória e menos software ainda. Através de auxílios individuais foram comprados alguns deles para o DI. Ficavam todos em uma sala. Mais tarde foi “roubado” um espaço da biblioteca, e depois foi selecionada uma sala um pouco maior do que a primeira para acomodar o que havia sido adquirido até o momento.

A Internet ainda estava engatinhando. A FPLF possuía um micro que estava ligado por linha telefônica privada a um computador do LNCC – Laboratório Nacional de Cálculo Científico. Este, por sua vez, ligava-se a uma rede capaz de se comunicar com computadores em algumas das universidades de outros países. Cada vez que se tentava utilizar essa rede, precisava-se rezar fervorosamente para que tudo funcionasse a contento. Mesmo assim foi possível utilizar esse sistema para participar de atividades cooperativas, tais como refereeing de artigos submetidos para congressos internacionais (já em 1983). Foi uma grande novidade na época, pois antes disso tudo era resolvido por correio, culminando com uma reunião presencial em alguma cidade no exterior. Evidentemente, a falta de recursos sempre dificultava, ou mesmo impedia, a nossa participação nessas reuniões. Essas dificuldades faziam com que fosse quase impossível nossos professores atuarem em comitês de programa de congressos internacionais.

Com o passar do tempo a rede de pesquisa brasileira foi se aprimorando. O CNPq fez uma doação de equipamentos Sun para várias universidades visando a sua interligação. Começou-se a poder utilizar correio eletrônico, trocando mensagens com inúmeras outras instituições de ensino e pesquisa espalhadas pelo mundo.

Com a intermediação da FPLF, surgiram os primeiros projetos de pesquisa e desenvolvimento. Estes projetos mostraram que era viável conciliar ensino e pesquisa com desenvolvimento, assegurando elevada fertilização cruzada. Os projetos resultavam em artigos, dissertações, teses e até em produtos úteis. Os projetos também permitiram a instalação de laboratórios modernos e bastante sofisticados. Finalmente, os projetos viabilizavam a contratação de alunos para participarem de atividades de desenvolvimento envolvendo tecnologia de ponta. Estava assim descoberta a fórmula de interação universidade-empresa que não conflitaria com os interesses de ensino e pesquisa como havia ocorrido no projeto G10.

7. Fase de envolvimento na Sociedade de Informação (95 a 99)

Os anos 93 e 94 marcaram uma grande mudança de relacionamento da sociedade com computadores. Antes dessa época algumas pessoas podiam ter microcomputadores em casa ou no escritório. Estes computadores podiam estar ligados em rede, usualmente lentas e nem sempre confiáveis. Entretanto dificilmente as redes locais estavam interligadas a outras redes locais. A interligação transparente de redes existia somente nas universidades e institutos de pesquisa. Impunha-se tornar pública a Internet.

O Brasil acompanhou rapidamente essa tendência criando o Comitê Gestor da Internet. Em 1995 começou-se a criar a Internet pública no Brasil. Inicialmente era tratada como coisa para aficionados. Mas, com o passar do tempo, sua inserção na sociedade tomou ares de avalanche. A conseqüência foi a criação de um enorme mercado de serviços antes impensáveis. Alguém conseguiria imaginar o mundo atual de ensino, pesquisa e desenvolvimento sem correio eletrônico, sem e-business, sem transferência de arquivos, sem Google, sem Amazon e similares? Hoje é possível, para qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta, desde que disponha de um computador e de uma conexão suficientemente confiável e rápida, estar tão atualizada quanto outra pessoa que se encontre em um centro avançado de ensino e pesquisa. Pois é, há cerca de 10 anos nada disso existia!

A massificação do uso de computadores trouxe consigo um significativo barateamento dos equipamentos. No início dos anos 90 comprava-se um microcomputador avançado (um 386!) por cerca de US$6.000,00 ou mais. Hoje um equipamento muitíssimo mais poderoso pode ser adquirido por pouco mais de US$1.200,00. Isso, por sua vez, tornou quase onipresentes os computadores. Raras são as pessoas da classe média que hoje não têm acesso a um. Conseqüentemente, surgiram novas formas de organização empresarial e novas formas de organizar ensino, pesquisa, desenvolvimento e lazer. Hoje uma grande parte das empresas operam via Internet, e a PUC-Rio é uma delas. Secretárias podem estar em locais distantes das pessoas a quem secretariam, dúvidas são tiradas através do e-mail ou ICQ, documentos são confeccionados a n mãos em uma questão de poucas horas e com os autores possivelmente espalhados pelo mundo. Artigos, teses etc. são produzidos e revisados envolvendo pessoas a dezenas de milhares de quilômetros de distância, viabilizando o orientador virtual. Exemplos de programas e projetos, trabalhos, notas de aulas, notas de trabalhos e de provas são disponibilizados através de páginas das disciplinas. Nada disso era imaginável há cerca de 8 anos (para referência, estamos em 2006).

Em reação a um edital do CNPq e por iniciativa do José Alberto Sampaio Aranha e do prof. Luiz Martins, o Departamento de Informática entrou, em 1996, num concurso de seleção de projetos de institucionalização de incubadoras de empresas de informática. O projeto Infogene foi selecionado. Agora tínhamos o problema de onde localizá-lo. Há muito o ITUC vinha tentando a criação de uma incubadora; o Instituto Gênesis, até conseguiu recursos para construir o prédio, mas não teve recursos suficientes para torná-lo operacional. Com o apoio da FPLF, foi então proposto sediar o Infogene na incubadora Gênesis e, em contrapartida a um “empréstimo” de espaço físico, a FPLF se comprometeu a concluir as obras que faltavam. Hoje a incubadora Gênesis é reconhecida como uma das melhores do país. Um sinal de sua maturidade é estar sofrendo há algum tempo do “mal da PUC” – falta de espaço físico para poder crescer.

Também a condução de projetos de desenvolvimento foi ampliada e aprimorada. Na realidade procurar projetos foi tornado obrigatório devido ao término total do projeto FINEP. No início o corpo docente do DI olhava com certa desconfiança para os poucos laboratórios temáticos que realizavam projetos em parceria com empresas. Os dois primeiros foram o ICAD e o TecGraf coordenados pelos profs Bruno Feijó e Marcelo Gattass. Mais adiante começou-se a enxergar nisso uma excelente fonte de recursos para despesas que a PUC tradicionalmente não vê como cobrir. Os laboratórios do DI foram divididos em duas categorias, os de ensino e pesquisa e os temáticos. Estes últimos devem ser auto-sustentáveis, ou seja: custos como, entre outros, a aquisição e manutenção de equipamentos e software, o pagamento de pessoal vinculado ao laboratório, construção ou manutenção do espaço físico etc., devem todos ser custeados com recursos que o próprio laboratório gera. Além disso, uma pequena parte de tais recursos deve ser transferida para o departamento, possibilitando a evolução e a manutenção dos laboratórios de ensino e pesquisa. Essa fórmula também mostrou-se bem-sucedida. Hoje o departamento conta com treze laboratórios temáticos e talvez pudesse ter mais, se também não sofrêssemos do “mal da PUC”.

Dispomos assim, atualmente, de excelentes laboratórios temáticos e de ensino e pesquisa. São ao todo mais de 600 computadores. As instalações são boas, embora pouco espaçosas. Tudo isso conseguido com os recursos gerados por projetos e cursos de extensão coordenados pelo DI. Oxalá consigamos manter e aprimorar isso tudo por muitos anos vindouros.

Muitos foram os projetos de pesquisa e desenvolvimento realizados nos nossos laboratórios. Um deles, conduzido pelo prof. Lucena, explora o potencial da comunicação através de rede como instrumento do ensino à distância. O resultado foi o sistema Aulanet, devidamente implantado na CEAD – Coordenação de Ensino à Distância – onde é utilizado por vários cursos disponibilizados pela Internet. Também foi uma das motivações para a constituição da empresa Edu@Web. Esta nasceu como uma incubada no Instituto Gênesis, graduou-se, e atualmente está operando independentemente da PUC. Mais um exemplo do acerto desse modelo de ensino, pesquisa e desenvolvimento, pois não só motiva alunos, como também facilita a criação de spin-offs, sem, contudo, comprometer o volume e a qualidade de resultados de pesquisa na forma de artigos, dissertações e teses.

8. Fase atual, pesquisa web (a partir de 99)

Nestes últimos anos a Internet consolidou-se, estando plenamente imbricada na sociedade. Também está claro que uma parcela significativa das aplicações computacionais estará de alguma forma sediada na Internet. No entanto, pairam inúmeras dúvidas quanto às formas de desenvolver sistemas, muitas dessas herdadas da era pré-Internet. Além disso, a Internet viabilizou novas formas de organização de aplicações e transformou os desenvolvedores em neurastênicos recuperadores do tempo perdido. Os prazos para a entrega de produtos são cada vez mais exíguos, as exigências de qualidade e a complexidade das aplicações cada vez maiores. Como atacar e resolver esses problemas?

Poder-se-ia propor soluções baseadas em demorados estudos teóricos. Outra forma seria a de conduzir experimentos e procurar deles extrair as teorias embasadoras. Ao seguir a linha experimental, pode-se, mais uma vez, particioná-la em experimentos desvinculados (toy problems) ou experimentos vinculados a um problema do mundo real com potencial de gerar um spin-off (versões pré-operacionais). Evidentemente, a segunda opção é muito mais atraente para um jovem. Fica então o problema de como fazer tudo isso sem comprometer prazos de formação, quantidade de formados e qualidade da pesquisa. O sucesso desta opção pode ser atestado pelo número de spin-offs gerados a partir de trabalhos desenvolvidos em nossos laboratórios.

No meio universitário e, em particular, na PUC-Rio, os professores e pesquisadores cada vez mais buscam induzir seus orientados a publicar, prestando-lhes auxílio na redação dos textos, e estabelecendo um esquema de trabalho cooperativo, em que cada aluno ajuda outros. Através de uma contínua cobrança por resultados, que são difundidos aos demais através de seminários estabelecidos segundo um cronograma publicado e, principalmente, através da orientação constante e do trato amistoso, tem-se mostrado possível atingir os objetivos citados. Este, provavelmente, é o segredo de termos podido reunir tantos alunos em nossos laboratórios, muitos deles trabalhando em projetos não remunerados. Sempre com a participação dos alunos, procuramos atingir uma produtividade acadêmica de boa qualidade, a ser atestada pelas conferências e pelos periódicos em que os artigos são publicados.

9. Epílogo

Muito mais poderia ser dito. Mas este relato não poderia ter a pretensão de exaurir o assunto. Destina-se meramente a lembrar como começou o Departamento de Informática da PUC-Rio, e a delinear o contexto em que se desenrolou (e espera-se que prossiga) sua estória, condicionada pelos avanços e surpresas da própria informática, e pelos desafios enfrentados pela academia e pela indústria em nosso país.


O primeiro computador para fins científicos instalado em uma universidade da América Latina, o Datatron Burroughs B-205, foi inaugurado em 1960 pelo então arcebispo de Milão, Giovanni Baptista Montini, que viria a ser o papa Pablo VI.

Leia a história completa no artigo:

Margarida de Souza Neves, Silvia Ilg Byington and Arndt von Staa. El B-205 en la PUC-Rio: Historia y memoria de la primera computadora para fines científicos en una Universidad brasileña. 2o. SHIALC – Simposio de História da Informática na América Latina e Caribe, parte do XXXVIII CLEI. Medellin, Colômbia, 2012. (Apresentação SHIALC 2012, PPT, 14 MB)

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